Something from Nothing: O dia em que o Foo Fighters fez Belo Horizonte tremer

Here lies a city on fire
Singing along the arsonist choir
Now here I go…

Era quase nove e meia da noite. 17 mil pessoas reunidas na Esplanada do Mineirão ansiavam pela chegada da banda. Já aquecidos por um show pauleira do Raimundos e pelo rock enérgico do Kaiser Chiefs, as luzes se apagam e a multidão brada em um coro uníssono, ansiando pela chegada do que seria o arauto do tsunami musical que inundou BH:

FOO FIGHTERS! FOO FIGHTERS!

É incrível o impacto da chegada de Dave Grohl. É incrível ver como a presença de palco e o domínio de público do ex baterista de uma das maiores bandas do mundo cativa e contagia a multidão que, ensandecida, recebeu o frontman com uma energia sem igual. E a resposta a toda essa energia foi nada menos que uma entrada apoteótica ao som do primeiro single do álbum Sonic Highways, Something From Nothing, que dava o tom da noite com uma introdução reflexiva, um crescendo ritmado que, aos poucos se tornaria uma pancada nos ouvidos, com a bateria frenética de Taylor Hawkins e as guitarras explosivas de Chris Shiflett e Pat Smear.

Send in the congregation
​Open your eyes, step in the light
​A jukebox generation
​Just as you were

O rock se divide em dois grupos hoje: os clássicos e o underground. Basicamente isso. No mainstream, onde reina o pop e a black music, o nosso bom e velho Rock & Roll não tem mais espaço na Billboard, sendo representado basicamente pelos nossos heróis de guerra do século passado, clássicos dos anos 60, 70 e 80, ou  por bandas que, seja por experimentação musical ou  comercial, se rendem a DJs, samplers e muita edição (alô Linkin Park), entregando um som mais artificial e muito distante do espírito agressivo e distorcido que crescemos ouvindo.
De outro lado, temos a cena alternativa, bandas de fora do circuito EUA/Inglaterra, indies e alternativos que alimentam a diversidade da cena musical e mantém vivo o espírito e a musicalidade mais pura e técnica, mas sem atingir o mainstream (o que faz o meu coração cansado pela idade chorar de tristeza).
Sim, caro leitor, não tiro a sua razão em pensar “Mas qual é a necessidade dessa ~cagação de regra~ toda?”. Mas pense por um segundo: quantas bandas você ouviu produzindo material novo, de qualidade, com instrumentos de verdade (nada contra DJs, tenho até amigos que são) e que não precisam viver apenas dos clássicos de 30 anos atrás para atingir o grande público? Então, se você  pensou no Black Sabbath, você está certo (louvado seja Tony Iommi). Mais alguma? Então…
Numa era de estiagem musical, o Foo Fighters ainda consegue atrair mais de cento e sessenta mil pessoas ao redor do Brasil, em quatro shows históricos, fazendo o público vibrar dos clássicos aos covers, das novidades ao trivial, onde só não foi possível não se surpreender a cada música, tocada  com cada vez mais intensidade pela trupe de Dave Grohl. Nosso ~amigo~ Dinho Ouro Preto pode ficar feliz,  pois foi clara a presença daquela banda que uniria todas as tribos, e quem iria imaginar que seu frontman seria do próprio Norvana.

No you can’t make me change my name
You’ll never make me change my name

Um evento interessante que ocorreu durante o show foi que, no mesmo setor que eu, estava o pessoal da banda mineira Monkey Wrench, que faz um cover maneiríssimo do Foo Fighters. Um cover tão assustador que o vocalista Rafa Giácomo é exatamente igual ao Dave Grohl. Cara, cabelo, barba e até as tatuagens do Dave o cara tem.

Eu e o Dave Grohl Mineiro

 

E depois da banda  terminar de tocar Congragation, Dave Grohl se retira do palco, e volta com a camisa  da Monkey Wrench! Fantástico! Que homenagem sensacional do “cara mais legal do rock” aos seus fãs.

– MAS PÉRA AE! NÃO É O DAVE GROHL NÃO, SÔ!!!

O sósia do Dave Grohl, com toda a naturalidade do próprio, quase sem deixar transparecer a excitação de estar no palco com seus heróis, foi convidado a tocar o sucesso Breakdown, fazendo as vezes do frontman que dá o tom de seu cover. Aos olhos de algum desavisado, a diferença era quase imperceptível. E só seria notada quando o próprio Dave Grohl volta para o palco, interrompendo a música e, educadamente dizendo ao seu clone:

– Get the fuck out of here.

Num momento hilário, o frontman reavê a sua guitarra, abraça o seu gêmeo com um sorriso satisfeito no rosto e continua o show. Se pra quem viu o show a experiência foi inesquecível, para o vocalista da Monkey Wrench com certeza foi um marco histórico.

And held you in my bloody hands
These rattled bones and rubber bands
Washed them in the Muddy Water
Looking for a dime and found a quarter

Cover Sessions
Cover Sessions

 

Um dos momentos mais incríveis do show sem dúvida foi quando, no segundo palco (no final do corredor que dividida as pistas premium) onde Dave, portando a sua Gibson Trini Lopez, solava Times Like These, a banda emerge, acompanhando seu vocalista na canção e iniciando uma sessão de covers de bandas clássicas. Tivemos Detroit Rock City, clássico do Kiss tocada de forma energética e pesada pela banda. Tom Sawyer, do Rush (que fez muita gente lembrar do clássico Profissão Perigo), mostrando que Alex Liefson é sim um monstro na guitarra e não é pra qualquer um fazer seus solos (Chris Shiflett até se esforçou mas, né…), e que Taylor Hawkins pode não ser tão técnico, mas tem a mesma energia de Neil Peart, sem deixar a baqueta cair em nenhum momento. Tocaram Let There Be Rock do AC/DC, com toda a energia do Classic Rock que os australianos destilam na guitarra de Angus Young. E, sem dúvida alguma, o dueto de David Bowie com Freddie Mercury e o imortal Queen refeito pelo baterista Taylor Hawkins e pelo próprio Grohl (imitando cômicamente os agudos de Freddie), Under Pressure foi o destaque da noite, fechando com mestria a sessão de homenagens aos grandes expoentes, e mostrando a versatilidade da banda, ao honrar com mestria seus mestres, mas sem deixar de dar a sua cara aos clássicos.

So, who are you? Yeah, who are you?
Yeah, who are you?

"Ladies and Gentleman!"
“Ladies and Gentleman!”

É impossível não ser contagiado pela simpatia e pelo carisma de Dave Grohl. Grandes mestres como David Lee Roth, Steven Tyler e,  o considerado por muitos “The One Frontman To Rule Them All”, James Hetfield, invejariam a reciprocidade do público ao líder do Foo Fighters, que mesmo sem proferir uma palavra no português forçado de quem aprendeu algumas palavras no backstage, se comunicava com seus ouvintes de maneira fluida e natural. “Ladies and Gentlemen”, e toda a atenção estava em suas mãos. Aliás, é impossível não se contagiar com a paixão da banda, que claramente faz o que ama e faz questão de deixar isso claro. Mais do que isso, trazem uma idéia solida de rock n’ roll e fazem questão de dividir isso com o público, que, extasiado música após música, faz questão de cantar cada verso ao lado da banda. O bom humor, o foco na música e na atenção da platéia e, principalmente, a energia incansável de Grohl e os Foo Fighters (nome que, ele diz no show achar o mais idiota do mundo) sem dúvida tornam o que seria apenas um show, uma experiência única, que extravasa o palco e incendeia o auditório.

God as my witness,
Yeah, it’s gonna heal my soul tonight…

Não vivemos mais o caos da guerra fria. Não vivemos mais as guerras declaradas, os inimigos mundiais ou o medo nuclear. Esses fatores existem, mas principalmente hoje, nossos maiores inimigos cotidianos são outros. Nós mesmos, nossos medos, anseios, futuro e relacionamentos. Não me entendam mal, ainda não vivemos na utopia da paz, ou na futilidade de vivermos atolados apenas em nossos sentimentos. Mas o meu ponto é que o Foo Fighters traz em suas canções uma mensagem que, apesar de mundana, fala com cada um. Músicas como Wheels ( And you feel like it’s all over / There’s another round for you), Big Me, Times Like These, Learn To Fly, entre outras tocadas na noite encheram os olhos de quem ouvia, formando um grande coral que dividia a excitação da banda a cada canção. Não foi um culto, tampouco um momento de positivismo forçado, mas apenas uma banda dividindo de sentimentos comuns entre seus ouvidos, sem soar piegas, ou forçado de alguma maneira.

I swear I’ll never give in
I refuse
Is someone getting the best
The best, the best, the best of you?

O show terminou as 23:50 do dia 28 de janeiro, sem nenhum tipo de bis. “The Foo Fighters don’t make encore. We play until the end, and leave the stage when we finish.”, explicou Dave Grohl ao público. Dave fez questão de deixar bem claro que, por ser a primeira vez da banda  na cidade, eles tocariam até cansar. E mesmo após duas horas e meia de som, apenas interrompidas pelo bom humor do frontman, digo com propriedade que ainda havia energia para continuar até de manhã. Não tivemos o prazer de ver o ex-baterista do Nirvana em ação no seu antigo posto, mas tivemos uma aula de música sem igual, que uniu pessoas do Norte ao Sul do país na Esplanada do Mineirão e fazendo Belo Horizonte tremer (literalmente, era possível sentir o o estádio vibrar com a multidão pulando nos refrões). O consagrado coro em Best of You, acompanhado de um solo intimista e melódico do carismático vocalista e base guitar trouxe a multidão as lágrimas, e noite foi encerrada com o hit Everlong, tocado com toda a intensidade sonora necessária para fazer o Mineirão gritar mais uma última vez.

A turnê Sonic Highways termina no país do futebol mundial em grande estilo. Roqueiros, metaleiros, punks, quem curte e quem não se importa tanto assim, indiferentemente a qualquer rótulo, todos puderam partilhar da paixão e energia da banda, tornando esse mais um show histórico para quem pode estar lá. Esperamos agora que a banda continue crescendo em suas estradas sônicas, e que essas estradas a tragam novamente ao nosso Brasil para congregarmos novamente ao som do cara mais legal do rock n’ roll e sua banda.

Setlist:

1 – Something From Nothing
2 – The Pretender
3 – Learn to Fly
4 – Breakout
5 – My Hero
6 – Big Me
7 – Congregation
8 – Walk
9 – Cold Day in the Sun (incluindo partes de ”I’m the One”, Van Halen, “Ziggy Stardust”, David Bowie, e “Another One Bites the Dust”, Queen, na apresentação dos músicos)
10 – In the Clear
11 – I’ll Stick Around
12 – Monkey Wrench
13 – Skin and Bones (Dave Grohl e Rami Jaffee no acordeon)
14 – Wheels (solo por Dave Grohl)

B-Stage

15 – Times Like These (metade com Dave, metade com a banda)
16 – Detroit  Rock City (Kiss cover)
17 – Tom Sawyer (Rush cover)
18 – Let There Be Rock (AC/DC cover)
19 – Under Pressure (Queen & David Bowie cover, Taylor & Dave nos vocais)

20 – All My Life
21 – These Days
22 – Best of You
23 – Everlong